Reflexões sobre tempo e memória
- Sophia Eugênia Vieira

- 1 de jun. de 2020
- 2 min de leitura
Atualizado: 1 de ago. de 2020
No consultório o encontro entre um paciente e seu terapeuta é um encontro entre um tempo que passa e um que não passa. De um lado existe o tempo do relógio e da consciência, e do outro o tempo do inconsciente.
Nosso inconsciente é atemporal e funciona sob um processo que ignora a passagem do tempo. Nele atualizamos, revivemos e ressignificamos experiências passadas, regredimos, fazemos projeções, introjeções.
Há quem diga que a Psicanálise supervaloriza o passado, mas em uma análise o que de fato ocorreu na história do paciente pouco importa. Mais importa aquilo que, tendo ocorrido ou não no passado, não para de reocorrer no presente. Este é um tempo que não passa, porque busca e não encontra representação.
São conteúdos que se repetem e fazem do passado um destino. Eles aparecem quando a pessoa se queixa da repetição do mesmo mal, como as que se sentem destinadas a amar parceiros errados, a fracassar nos negócios ou a receber reincidentes “rasteiras” da vida.
No texto “Lembranças Encobridoras” Freud nos faz compreender que as lembranças não são só rememoradas do passado para o presente, como uma flecha atirada, em um único sentido. Em verdade, as lembranças podem exercer múltiplos movimentos na medida em que vivências (e pensamentos e fantasias) posteriores retranscrevem e ressignificam lembranças do passado intensificando, transformando ou deformando-as, como que recriando o passado através de novas articulações mentais.
Por tudo isso é difícil determinar o tempo de uma análise, que é muito subjetivo. Há uma fábula do caminhante em que ele pergunta ao sábio quanto tempo demoraria sua jornada e obtém como resposta “Caminhante, caminhe!”, pois observando a largura de seus passos poderia então calcular o tempo.
O processo analítico se orienta pelo ritmo de cada um, que pode se acelerar em alguns momentos e ser mais lento em outros. Cada pessoa é única e singular, e tem uma maneira própria de lidar com seus pensamentos e emoções. Assim, quase sempre a análise exige um tempo longo de tratamento por lidar com questões delicadas e complexas que envolvem padrões de comportamento estabelecidos ao longo de toda uma vida.

Imagem: A persistência da memória, 1931: Salvador Dalí


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