Sobre a capacidade de pensar
- Sophia Eugênia Vieira

- 1 de jun. de 2020
- 2 min de leitura
Atualizado: 1 de ago. de 2020
Para o psicanalista Wilfred Bion, o pensamento estará sempre vinculado à emoção. Toda formação de conhecimento está vinculada à formação do pensamento que é resultado de uma experiência emocional. São funções indissociáveis.
Ao investigar como uma pessoa concebe e se relaciona com a realidade, Freud observou que um bebê quando com fome e na falta do seio real da mãe, chupa o dedo e alucina o seio ausente. A partir desta observação, Freud sugeriu que, quando uma necessidade não é satisfeita, a alucinação se apresenta como uma fuga oferecida pelo que chamou de princípio do prazer para encontrar satisfação provisória a uma necessidade. Em seguida, ele também observou que, quando o bebê percebe que a alucinação não é suficiente para saciar a fome, ele passa então a pensar novas formas de buscar alimento levando em consideração o tempo e tolerando o adiamento desse prazer. A esta capacidade adquirida pelo bebê, Freud deu o nome de princípio da realidade. Dessa forma, nosso aparelho psíquico seria desenvolvido a partir da necessidade de lidar com estímulos internos (necessidade, sofrimento, dor, angústia) e externos (ausência do objeto de satisfação).
Bion desenvolve esta ideia e sugere que o pensar, em todos os momentos da vida, é uma capacidade que surge como uma solução para se lidar com a frustração, como uma criação parida pela dor. Portanto, a capacidade de pensar não é meramente cognitiva, mas de acordo com Bion ela é a inauguração de um espaço de autoria e criatividade.
E, apesar destas características remeterem à individualidade e ao singular, o pensar nasce no plural pois necessita do outro. Novas ideias não nascem sozinhas, é preciso do outro, diferente de mim, que aponta aquilo que me falta.
Mas nem sempre nosso aparelho de pensar dá conta de lidar com a dor e a frustração. Há vezes em que o psiquismo não consegue conter estes intensos sentimentos e não encontra alternativas para lidar com a angústia. Quando isso ocorre, estes sentimentos passam a atacar a própria mente numa tentativa de serem expulsos rapidamente, e podem se direcionar a algo externo num mecanismo que Melanie Klein chamou de identificação projetiva. A pessoa então se torna refém da fuga de sua própria dor.
É natural que queiramos escapar a qualquer custo do sofrimento, mas, evitando a dor, evitamos também o prazer. Se pudermos suportar a angústia e a dúvida, então seremos capazes de criar ideias e possibilidades.
Em cada um de nós existe um espírito investigativo que nos move na busca pela verdade, sobretudo a verdade sobre nós mesmos. Esta pulsão inata pela curiosidade e pelo vir a conhecer pode se manifestar de forma evasiva, contornando as verdades penosas através de diversas formas de negação; ou através do confronto destas verdades difíceis, assumindo-as e elaborando-as.
Pensar, portanto, é um processo complexo de experiência emocional. Não é simplesmente uma função cognitiva ou uma reprodução de ideias. Pensar é como perguntar, onde cada resposta carrega em si a semente de uma nova pergunta. Sobretudo a pergunta sobre quem se é.

Imagem: Vladimir Kush.


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