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Sobre 08 de março.

  • Foto do escritor: Sophia Eugênia Vieira
    Sophia Eugênia Vieira
  • 27 de mar. de 2021
  • 3 min de leitura

Eu tive o privilégio de crescer e viver ao lado de mulheres fortes, que me inspiraram com seus exemplos a pensar com meus próprios pensamentos, a desejar profundo e a ser livre dentro da minha própria mente. Essas mulheres foram feministas sem saber, algumas sem nunca haver ouvido essa palavra; outras que inclusive talvez desconjurassem o movimento se ouvissem. Ainda assim, feministas.

Infelizmente, a luta feminista ao longo dos anos foi necessária, ainda é, e, ao que parece, estamos longe de sanar delírios tão enraizados. É triste pensar que foi preciso tanto esforço para provarmos o óbvio e exigirmos o mínimo, e seria injusto não reconhecer tantas lutas travadas para que hoje se pudesse sonhar, realizar, ser e expressar.

Ainda há quem enxergue as coisas de outros vértices, e ângulos talvez mais estreitos. Há quem não queira enxergar muita coisa, há quem ainda não possa. Há quem se apegue a um ou outro tipo de manifesto para desvalorar o movimento como um todo. De fato, são muitos feminismos, e eles muitas vezes se contrapõem. Tudo bem não aceitar todas as suas versões. Mas há que se reconhecer os números. O feminicídio existe, a violência contra a mulher é muito maior do que supomos, a comparação salarial não é justa, a divisão de tarefas ainda menos, e isso representa opressão e dominação sob corpos objetificados. Ainda há quem apedreje, justifique o abuso pelo tamanho da saia, há quem ainda retire clitóris de meninas. É uma questão ancestral política, social e cultural, e o cultural também precisa ser pensado.

Desde que nascemos, a partir das primeiras experiências de satisfação, predomina em nós uma ou outra forma de nos relacionarmos. Em uma delas, tendemos a nos defender das más experiências projetando para fora (dentro do outro) aquilo que nos causa conflito. Mantendo do lado de fora o “mal”, protegemos o “bom” dentro de nós. Entretanto, uma vez que o mal está no outro, esta defesa pode se transformar em persecutoriedade, o outro se torna odiado e ameaçador. Buscando garantir o bem-estar e a integridade do eu, nega-se a própria vulnerabilidade, inerente e inevitável, e ilude-se com uma onipotência falsa e imaginária.

Neste sentido, a direção da “cura” se dá em aproximar-se de uma visão mais real, global e integral dos outros e de si mesmo para que as próprias angústias possam ser toleradas e pensadas, e não projetadas.

Tendo a pensar o machismo por aí.

O desenvolvimento do reconhecimento do outro como outro, como alteridade, como diferente se dá a partir do reconhecimento de uma alteridade dentro de mim mesmo, da minha própria vulnerabilidade. Não se trata de levantar a bandeira do “somos todos iguais” ou do “somos todos diferentes”, o diferente pode se tornar estrangeiro e perigoso. É importante que o diferente seja reconhecido dentro de si mesmo. Ao deixar de tolerar o que se considera diferente, nega-se tanto a própria vulnerabilidade quanto a do outro.

Não se trata de extirpar o ódio, não seria fértil. Nem de aceitá-lo. Mas de reconhecê-lo a partir de nossa humanidade, tomá-lo pela mão, sentar pra conversar, instigar pensamentos, invocar transformações.

Eu tive o privilégio de crescer e viver ao lado de mulheres fortes, que me inspiraram a pensar, sonhar e ser livre. Essas mulheres foram feministas sem saber, machistas também.

Temos trabalho pela frente, comecemos por nós mesmas.

 
 
 

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