Se um passado insiste em retornar, não é passado, é presente.
- Sophia Eugênia Vieira

- 2 de mai. de 2021
- 3 min de leitura
Castelo de vidro é um filme baseado num livro homônimo que relata memórias reais de desamparo infantil de uma jornalista de sucesso junto a seus irmãos com seus pais boêmios e errantes. O destaque está na relação ambivalente entre a personagem principal e seu pai, mas também retrata traumas transgeracionais, a força da fraternidade entre os irmãos e as tentativas da personagem de seguir adiante.
É um filme que assisto com voracidade. Andei pensando nele hoje e quis assisti-lo de novo, mas antes mesmo de o filme acabar eu já planejava vê-lo outra vez. É como se quisesse absorver por completo sem perder nenhuma cena, fala ou olhar; e não quisesse me desconectar ou esquecer o que ele me causa. Ainda não li o livro, pretendo fazê-lo, mas hoje me detive na fotografia de uma cena (impressão que só o cinema possibilita) em que pai e filha estão deitados na neve olhando as estrelas. É Natal e, embora estivessem estirados na neve, é o momento mais acalentador e aconchegante do filme na relação daqueles dois.
O diálogo é sobre o pai presentear a filha com uma estrela. Ela escolhe a que brilha mais. Ele a adverte que aquilo é um planeta, Vênus, um planeta pequeno comparado a estrelas reais, e só brilha mais porque está mais próximo. Ela o quer mesmo assim. Ele então segue contando que sua atmosfera é parecida com a da Terra, mas muito mais quente; e assim, quando o sol começar a se extinguir e a Terra esfriar, todos vão querer se mudar para Vênus para estar mais aquecidos.

Quando vi essa cena pela primeira vez me lembrei imediatamente de duas cenas do filme Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, cuja fotografia compõe o cartaz do filme. As duas cenas são iguais, mas uma se passa no presente e a outra é uma memória do passado que ele quer (mas não deseja) esquecer. Nestas cenas, o casal também está olhando as estrelas, deitados sob o gelo de um lago congelado, muito próximos de uma rachadura, e, ainda que sob algum risco, estão exatamente onde e como queriam estar. O personagem está feliz “como nunca antes havia estado”.

Ambos os filmes falam sobre memórias, sobre um passado que retorna inevitavelmente, e refletem sobre o que podemos (ou não) fazer com ele. Em ambas histórias, de diferentes maneiras, os personagens tentam borrar o passado para seguir a vida, mas uma força inconsciente surge na direção contrária buscando integração.
Já ouvi de pacientes em suas primeiras entrevistas a pergunta receosa sobre terem que falar da infância. Numa análise a única regra fundamental é que a fala seja livre, mas há muitas formas de falar sobre a infância, evitar falar pode ser uma delas.
Num texto que se chama “Recordar, repetir e elaborar”, nosso querido Freud menciona duas formas de esquecer. A primeira é através da repressão quando a experiência causou desconforto e precisamos afastá-la da consciência. Para mantê-la inconsciente gastamos alguma energia, porque ela insiste em retornar e religar-se e, assim, surgem os sintomas, através do “retorno do recalcado”. A segunda e mais efetiva forma de esquecer é possibilitada pela análise, na revivência de afetos através da transferência, quando o conteúdo tem a oportunidade de ser religado, elaborado, e aí então perde sua força. Em outras palavras, é preciso lembrar para esquecer.
Ambas as cenas nos dois filmes revelam alguns paradoxos: uma se dá na neve, enquanto aspiram um planeta mais aquecido; a outra num lago congelado, ao lado do risco de uma rachadura, enquanto vivem os momentos de maior felicidade e acalento. As cenas também suscitam uma sensação de parada no tempo, um presente que quer durar para sempre.

Quanto aos títulos, Castelo de Vidro ganha este nome por se referir ao projeto nunca concretizado do pai da personagem de construir uma casa a partir da qual seria possível ver as estrelas. Uma casa que nunca existiu e, por isso, nunca protegeu, mas abrigou sonhos maiores.
Quanto ao segundo filme, busquei seu título original, Eternal Sunshine of the Spotless Mind, e a tradução da palavra spotless no inglês: “absolutamente limpo ou puro, imaculado, sem falhas ou manchas morais”. Edípico, não? Fiquei intrigada, Freud riu.


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