O furo
- Sophia Eugênia Vieira

- 27 de mar. de 2021
- 2 min de leitura
Recentemente numa aula do mestrado, para falar da assunção da castração como um modo de habitar a vida, o professor falou um pouco do processo de desilusão nas relações entre casais e das não-garantias de um casamento. Me fez lembrar que dia desses as meninas pediram pra ver minha aliança de casamento e a derrubaram (jogaram, acho que pra testar a consistência, muito edípico...) no chão. O brilhantinho que dava um charme pro anel se soltou, se perdeu e sobrou um furo em seu lugar. Minha aliança de casamento agora tem um furo. Eu a deixei guardada por uns dias na esperança de levar para o conserto, mas estávamos no meio da quarentena total e eu não faço ideia de onde se arruma essas coisas aqui em Santiago; então, considerando meu grau de enrolação, tive que decidir entre adotar um casamento sem o uso obrigatório da aliança ou usar uma aliança com um buraco.
De verdade não faço questão do uso de alianças. Nós nunca fomos muito tradicionais, aliás quase sempre um pouco subversivos, e isso não mudaria absolutamente nada, mas optei por usar a aliança esburacada mesmo. Nos primeiros dias eu girava pra esconder o furo pro lado de dentro da mão, já estava virando uma mania, mas de repente, não sei, comecei a gostar daquele furo. Parece que nunca fomos tão bem representados, simbolizados.
O furo sempre foi nossa potência criativa, nossa capacidade produtiva, nossa vontade de crescer. E a gente cresce a partir do furo e apesar do furo.
Aquele brilhantinho perdido nunca mais será encontrado. Talvez eu o reponha em algum momento. Talvez ache lindo e exiba feliz meu anel com cara de novo. Talvez o olhe como um brilhantinho postiço, remendado e não original. Talvez eu sinta falta do furo. Talvez eu ria ao lembrar que nem era brilhante coisa nenhuma, mas zirconia. Esta seria a melhor das hipóteses.


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