Inclusão pra quem?
- Sophia Eugênia Vieira

- 29 de set. de 2021
- 1 min de leitura
Fui criada ao lado do meu irmão, dois anos mais novo, que nasceu com síndrome de down. Crescemos numa sintonia poderosa de amor e cumplicidade, comungamos dos mesmos erros e acertos de nossos pais, convivemos sob a mesma rotina onde eu sempre participava das suas atividades escolares, terapêuticas e de estimulação. Aliás, eu morria de inveja das suas aulas de fisioterapia, das brincadeiras na bola gigante, de toda atenção que recebia; lidei e cresci com isso. Me familiarizei com seu ambiente escolar, os colegas, as famílias, algumas com dificuldades e sofrimentos imensuráveis. Mas nunca foi sobre ele, era sobre mim. Depois de me mudar de cidade e me afastar fisicamente, a comunicação ficou cada vez mais escassa. Em pouco tempo senti que já não entendia muito bem o que ele falava, fui perdendo essa parte tão importante do elo que nos une. Mas Felipe tem uma memória incrível, e, mesmo que a gente se fale muito pouco agora, quando nos falamos, me sinto presente no seu afeto, viva na sua memória. Aliás, suas lembranças testemunham e legitimam minha infância, que também foi a sua; afagam e tornam terna minha história, acolhem a criança que ainda sou. Fui eu quem perdeu com esse distanciamento, sou eu quem não consegue mais compreender com a clareza de antes esse seu modo particular de se comunicar. E minha memória não alcança tão longe. Sou eu quem perco. Nunca foi sobre ele, sempre foi sobre mim.


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