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Dos pecados nossos de cada dia. Sobre ciúme, inveja e amor.

  • Foto do escritor: Sophia Eugênia Vieira
    Sophia Eugênia Vieira
  • 1 de jun. de 2020
  • 3 min de leitura

Atualizado: 1 de ago. de 2020

Todos nós, em algum momento da vida e em algum nível, já sentimos ciúme ou inveja. Ambos são sentimentos quase tão normais quanto o luto, embora desempenhem um papel muito mais inconsciente.

É comum ouvirmos confusões sobre os dois termos, como se tivessem o mesmo significado; eles até se aproximam muitas vezes, mas trazem importantes diferenças: começando, a inveja sempre envolve uma dupla, enquanto o ciúme, um triângulo.

Ciúme é aquilo que representa o medo de perder o que se tem para um terceiro. Por isso sua configuração é triangular. Neste caso o ódio é direcionado àquele para quem se perde (ou se tem que "dividir") o objeto amado. Este sentimento é tão comum e universal (lembrando que até os animais o sentem) que Freud afirma em 1922 que o indivíduo que aparenta não possuir ciúme provavelmente o teria reprimido, sofrendo de forma ainda mais severa sua atuação na vida mental inconsciente.

No mesmo artigo, Freud divide o ciúme em três camadas: o primeiro é o nível normal em que envolve rivalidade e medo de perder o objeto amado. O segundo nível é o projetado, onde um parceiro projeta no outro seu desejo de infidelidade, ou seja, acusa o outro de sentir ou praticar aquilo que ele não admite em si. O terceiro é o nível de ciúme delirante, de conteúdo homossexual em casais heterossexuais, onde é o parceiro ciumento quem deseja inconscientemente o objeto que julga ser desejado pelo outro. Este é o mais complexo, intenso, sofrido e persecutório, porque no fundo aquilo que se indaga nas incessantes perguntas investigatórias ao parceiro é acerca de seu próprio desejo; num misto de desejo e também de identificação com o "terceiro" da relação, como se também quisesse ser como ele.

Embora possa ser chamado de "normal", o ciúme nunca é totalmente racional, e pode se tratar de uma atualização de marcas emocionais das primeiras vivências infantis de rivalidade como, por exemplo, a que acontece entre irmãos.

Assim também o é a inveja que, segundo a teoria Kleiniana, pode já estar presente desde o nascimento, quando o bebê se vê impotente diante de uma mãe que é detentora e fonte de seu bem-estar e que pode ou não gratificá-lo de imediato através de seu seio farto do qual o bebê tanto depende.

A inveja, etimologicamente falando, se originou da palavra latina "invidere" que significa não ver, e seguiu sendo associada àquilo que se refere à visão: "mau olhado", "olho grande", "olho gordo", "cego de inveja", etc.

Em francês, a inveja é traduzida como desejo. O sentimento de inveja nasce então do desejar o que o outro tem e da frustração diante da impossibilidade de tê-lo. A frustração gera raiva, que gera desejo de destruição do objeto.

A inveja se torna o caminho mais curto para se lidar com a frustração: é mais fácil destruir aquilo que aponta minha falta, do que suportar a angústia, encarar e lidar com a frustração.

Algumas defesas são típicas na inveja: a primeiras delas é a desvalorização do outro. Como tentativa de não sentir inveja, o sujeito denigre para não ter que desejar o que julga ser inferior. Ele também pode projetar sua inveja no outro ou tentar provocar a inveja (que ele mesmo sente) no outro: a forma mais primitiva de comunicação. Assim, consequentemente, se sente perseguido pelo outro e ataca, criando um círculo vicioso. O indivíduo também pode fantasiar uma idealização tão exagerada do outro que se torna impossível alcançar. Para se proteger da inveja, ele pode imaginar que o outro possua qualidades inatingíveis, oferecendo proteção a si da frustração e ao outro de seu "ataque".

No final das contas, o termo "não ver" que originou a palavra inveja, pode se referir a não ver o que se tem dentro de si, o que se é, os próprios atributos.

Quando não reconheço minha força não suporto minha fraqueza. Na medida em que percebo, ou seja, vejo, minhas próprias qualidades e capacidades, me torno capaz de suportar as incapacidades, a frustração de não poder ter tudo e de não poder ser tudo. Reconhecendo minhas diferenças e qualidades promovo a integração destes conteúdos internos e então posso investir em novas possibilidades de satisfação através da capacidade de pensar e criar.

Invejas e ciúmes não se separam do amor. O bebê que acredita poder destruir o seio para não ser tão dependente dele, também é aquele que muitas vezes deixa de mamar para proteger sua mãe de sua destrutividade. Para Bion, a inveja é a primeira forma de pensar e tem uma função neste momento: a de abrandar o choque da criança para que ela se dê conta de que não é onipotente, mas que depende da mãe inteiramente.

Além disso, quanto mais distante estivermos da nossa própria realidade interna, mais insegurança haverá para gerar fantasias, ciúmes ou inveja. A intimidade com nossas próprias "tentações" faz muito mais por nossa saúde mental e nossas relações. Desconheço melhor forma de crescer, se desenvolver e amar.

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Imagem: Christian Schloe, Ilustrações Digitais. 2012

 
 
 

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