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Castelo de vidro é um filme baseado num livro homônimo que relata memórias reais de desamparo infantil de uma jornalista de sucesso junto a seus irmãos com seus pais boêmios e errantes. O destaque está na relação ambivalente entre a personagem principal e seu pai, mas também retrata traumas transgeracionais, a força da fraternidade entre os irmãos e as tentativas da personagem de seguir adiante.


É um filme que assisto com voracidade. Andei pensando nele hoje e quis assisti-lo de novo, mas antes mesmo de o filme acabar eu já planejava vê-lo outra vez. É como se quisesse absorver por completo sem perder nenhuma cena, fala ou olhar; e não quisesse me desconectar ou esquecer o que ele me causa. Ainda não li o livro, pretendo fazê-lo, mas hoje me detive na fotografia de uma cena (impressão que só o cinema possibilita) em que pai e filha estão deitados na neve olhando as estrelas. É Natal e, embora estivessem estirados na neve, é o momento mais acalentador e aconchegante do filme na relação daqueles dois.


O diálogo é sobre o pai presentear a filha com uma estrela. Ela escolhe a que brilha mais. Ele a adverte que aquilo é um planeta, Vênus, um planeta pequeno comparado a estrelas reais, e só brilha mais porque está mais próximo. Ela o quer mesmo assim. Ele então segue contando que sua atmosfera é parecida com a da Terra, mas muito mais quente; e assim, quando o sol começar a se extinguir e a Terra esfriar, todos vão querer se mudar para Vênus para estar mais aquecidos.


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Quando vi essa cena pela primeira vez me lembrei imediatamente de duas cenas do filme Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, cuja fotografia compõe o cartaz do filme. As duas cenas são iguais, mas uma se passa no presente e a outra é uma memória do passado que ele quer (mas não deseja) esquecer. Nestas cenas, o casal também está olhando as estrelas, deitados sob o gelo de um lago congelado, muito próximos de uma rachadura, e, ainda que sob algum risco, estão exatamente onde e como queriam estar. O personagem está feliz “como nunca antes havia estado”.


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Ambos os filmes falam sobre memórias, sobre um passado que retorna inevitavelmente, e refletem sobre o que podemos (ou não) fazer com ele. Em ambas histórias, de diferentes maneiras, os personagens tentam borrar o passado para seguir a vida, mas uma força inconsciente surge na direção contrária buscando integração.


Já ouvi de pacientes em suas primeiras entrevistas a pergunta receosa sobre terem que falar da infância. Numa análise a única regra fundamental é que a fala seja livre, mas há muitas formas de falar sobre a infância, evitar falar pode ser uma delas.


Num texto que se chama “Recordar, repetir e elaborar”, nosso querido Freud menciona duas formas de esquecer. A primeira é através da repressão quando a experiência causou desconforto e precisamos afastá-la da consciência. Para mantê-la inconsciente gastamos alguma energia, porque ela insiste em retornar e religar-se e, assim, surgem os sintomas, através do “retorno do recalcado”. A segunda e mais efetiva forma de esquecer é possibilitada pela análise, na revivência de afetos através da transferência, quando o conteúdo tem a oportunidade de ser religado, elaborado, e aí então perde sua força. Em outras palavras, é preciso lembrar para esquecer.


Ambas as cenas nos dois filmes revelam alguns paradoxos: uma se dá na neve, enquanto aspiram um planeta mais aquecido; a outra num lago congelado, ao lado do risco de uma rachadura, enquanto vivem os momentos de maior felicidade e acalento. As cenas também suscitam uma sensação de parada no tempo, um presente que quer durar para sempre.

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Quanto aos títulos, Castelo de Vidro ganha este nome por se referir ao projeto nunca concretizado do pai da personagem de construir uma casa a partir da qual seria possível ver as estrelas. Uma casa que nunca existiu e, por isso, nunca protegeu, mas abrigou sonhos maiores.


Quanto ao segundo filme, busquei seu título original, Eternal Sunshine of the Spotless Mind, e a tradução da palavra spotless no inglês: “absolutamente limpo ou puro, imaculado, sem falhas ou manchas morais”. Edípico, não? Fiquei intrigada, Freud riu.

  • Sophia Eugênia Vieira
  • 27 de mar. de 2021

Atualizado: 5 de dez. de 2021

Uma metáfora sobre crescimento mental me acompanha há bastante tempo e nunca perdeu o sentido. É a imagem de um espiral. Bem, há um furo em torno do qual estaremos sempre envoltos. De tempos em tempos voltamos a ele. Damos voltas e voltas, ampliando a circunferência, mas no fim estaremos sempre orbitando sobre o mesmo furo gravitacional.

Mesmo depois de anos de análise, muitas vezes nos depararemos com questões infantis quase ridículas. É assim. Análise é pra gente falar bobagem mesmo. Um pouco também pra perder o medo de ser ridículo, aceitar que, sim, somos todos ridículos.

Ninguém precisa fazer análise por tanto tempo. A gente faz análise pra viver melhor, não pra viver fazendo análise. Mas nós profissionais da saúde mental, mergulhados que estamos em nós mesmos, deveríamos. Afinal, somos nós mesmos nosso instrumento de trabalho. E porque sempre haverá novos sentidos. Fazer análise te permite mergulhar cada vez mais fundo. Depois voltar à superfície. E a cada mergulho ganhar mais fôlego.

Talvez, em resumo, análise seja pra isso, ganhar coragem e fôlego pra viver, apropriar-se da própria história e poder recontá-lá. Dói. A gente, literalmente, paga pra sofrer. Mas também pra ser livre. E liberdade não tem preço.

  • Sophia Eugênia Vieira
  • 27 de mar. de 2021

Recentemente numa aula do mestrado, para falar da assunção da castração como um modo de habitar a vida, o professor falou um pouco do processo de desilusão nas relações entre casais e das não-garantias de um casamento. Me fez lembrar que dia desses as meninas pediram pra ver minha aliança de casamento e a derrubaram (jogaram, acho que pra testar a consistência, muito edípico...) no chão. O brilhantinho que dava um charme pro anel se soltou, se perdeu e sobrou um furo em seu lugar. Minha aliança de casamento agora tem um furo. Eu a deixei guardada por uns dias na esperança de levar para o conserto, mas estávamos no meio da quarentena total e eu não faço ideia de onde se arruma essas coisas aqui em Santiago; então, considerando meu grau de enrolação, tive que decidir entre adotar um casamento sem o uso obrigatório da aliança ou usar uma aliança com um buraco.

De verdade não faço questão do uso de alianças. Nós nunca fomos muito tradicionais, aliás quase sempre um pouco subversivos, e isso não mudaria absolutamente nada, mas optei por usar a aliança esburacada mesmo. Nos primeiros dias eu girava pra esconder o furo pro lado de dentro da mão, já estava virando uma mania, mas de repente, não sei, comecei a gostar daquele furo. Parece que nunca fomos tão bem representados, simbolizados.

O furo sempre foi nossa potência criativa, nossa capacidade produtiva, nossa vontade de crescer. E a gente cresce a partir do furo e apesar do furo.

Aquele brilhantinho perdido nunca mais será encontrado. Talvez eu o reponha em algum momento. Talvez ache lindo e exiba feliz meu anel com cara de novo. Talvez o olhe como um brilhantinho postiço, remendado e não original. Talvez eu sinta falta do furo. Talvez eu ria ao lembrar que nem era brilhante coisa nenhuma, mas zirconia. Esta seria a melhor das hipóteses.

Psicologia Online por Sophia Eugênia Vieira

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