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  • Sophia Eugênia Vieira
  • 29 de set. de 2021

Um dia, minha irmã que era do teatro, chegou em casa contando que aprendeu algo sobre a importância de deixar o outro brilhar, sobre saber reconhecer o momento de dar um passo atrás e deixar o outro protagonizar. Está na arte e está na vida, é essencial para a boa convivência, mas ninguém nasce sabendo disso. Aliás, na melhor das hipóteses, nascemos sendo, de fato, o centro das atenções, afetos e cuidados.

Para Winnicott, o bebê quando nasce, precisa, por um tempo, sentir a continuidade da vida, sem traumas, como se não soubesse que nasceu. Ele precisa acreditar-se onipotente. Para isso, deduzimos e atendemos suas necessidades o mais prontamente possível. Aos poucos esse bebê vai se reconhecendo como uno, indivíduo separado, e caminha em direção à independência na medida em que reconhece sua dependência. Para que esse bebê alcance crescimento e autonomia é preciso que ele dependa e seja atendido, iludido em sua onipotência. Para isso ele deverá ser investido de amor e devoção e ser o centro das atenções. Só assim, mais adiante, proprietário e detentor desse amor próprio, saberá sair de cena sem que pareça deixar de existir porque só se sente vivo sob o olhar do outro. Além disso, aprenderá a amar, a sair de si mesmo, investir fora e lançar-se na vida.

E o que é amar senão iluminar-se desde adentro, emprestar luz ao outro e fazer que brilhe?

  • Sophia Eugênia Vieira
  • 29 de set. de 2021

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Nessa semana foi o dia dos filhos e eu não estive junto às minhas. Também foi uma semana de muita leitura e trabalho sobre Winnicott que é um autor que há muito me encanta, mas que também produz em mim questionamentos.


Winnicott confere um valor especial ao ambiente no processo de amadurecimento emocional que vai da dependência absoluta do bebê até sua independência (que nunca será absoluta).


Para possibilitar e favorecer este processo, Winnicott lança seu conceito de “mãe suficientemente boa” que pra mim sempre soou muito redondo, perfeito demais e, por isso, inatingível.


Demorou até que eu entendesse que é justamente essa a ideia: Mirar à mãe suficientemente boa para acertar a humanamente possível. Até porque Winnicott também inclui a importância das falhas da mãe, do ambiente e do analista neste processo.


No dia de hoje também aprendi sobre cultivo de uvas para produção de vinhos e conceito de “terroir”, que seria um conjunto de combinações que favorecem a qualidade e forjam as características do vinho. Isso inclui solo, clima, manejo de poda e colheita, da duração de cada etapa, e até (pasmem) sonoridade. Sim, hoje visitei barricas de carvalho que aninham vinhos que dormem ao som de cantos gregorianos. Como uma canção de ninar mesmo.


Os vinhos que saem dali serão os “ícones” daquela vinícola que, antes de serem ninados sob o som dos cânticos já haviam sido investidos de outros cuidados bastante atentos e refinados.

O terroir que espera, gera e nina os ícones é a mãe suficientemente boa de Winnicott.


Pra que todas estas combinações fossem ajustadas, certamente houveram erros e descartes, além de terem exigido muitas mãos e mentes humanas. Assim, bem plural.


Nessa semana foi o dia dos filhos e eu não pude estar junto às minhas. Apesar da ausência e dos muitos erros, eu sei que prevaleceram no coraçãozinho delas as primeiras canções de ninar que cantei. E se fizer silêncio demais, melhor ainda poderão ouvi-las.


  • Sophia Eugênia Vieira
  • 3 de mai. de 2021

A Psicanálise foi descrita por Freud como um método científico de investigação, um conjunto de conceitos e teorias e um método de tratamento clínico, ou seja, uma maneira de lidar com o sofrimento e com os sintomas que advém dele. No seu exercício clínico, Freud descobriu no interior do homem forças e desejos inconscientes poderosos e opostos que estão em constante conflito entre si. Além de inerentes, as contradições seriam também constitutivas do ser humano como tal, o que questiona o conceito de “indivíduo” (indivisível), e introduz a ideia de “sujeito”. Freud dizia que o objetivo da Psicanálise seria restaurar no sujeito a capacidade de investir em pessoas e ideais, ou seja, “amar e trabalhar”. Com capacidade de amar, ele quis dizer ser capaz de manter relações afetivas qualitativas e viáveis, conhecendo a si mesmo, suas capacidades e limitações, tolerando mais e sentindo mais compaixão para com o outro, deixando de exigir do outro o que ele não pode dar. Quanto ao trabalho, Freud se referiu à capacidade funcional para viver em sociedade de maneira mais harmoniosa aceitando que algumas coisas podem ser mudadas, mas outras não, aceitando melhor a ideia de finitude, assumindo responsabilidades, vivendo com mais paixão. Por assim dizer, o trabalho da Psicanálise possibilita importantes transformações psíquicas no sujeito na medida em que este vai remanejando suas energias, seus investimentos libidinais de acordo com seu sistema de valores. Mas ela não oferece soluções mágicas, aliás, requer coragem e seu percurso por vezes é árduo, um trabalho penoso em direção à verdade, que por fim será libertador. O psicanalista não tem respostas prontas, não elimina sintomas imediatamente, nem sequer promete “cura”. A melhora vem, é fato, mas nem sempre da forma que o paciente esperava. Porque a Psicanálise trabalha na singularidade do sujeito e na verdade até então desconhecida do seu desejo. Além disso, desde o primeiro momento, o psicanalista vai buscar implicar o paciente no seu próprio sofrimento, responsabilizando-o subjetivamente por sua condição. É a partir deste sofrimento que o paciente busca o analista, e é de suma importância que o paciente realmente queira ser ajudado para que uma aliança terapêutica em direção à cura seja possível, pois, uma vez iniciada a análise, entra-se em contato com algo contraditório no paciente, uma força em sua mente que se opõe à mudança e à melhora que foi buscar. À essa força que é regida pelo princípio de inércia, Freud chamou de resistência. A indagação sobre as razões desta resistência e a forma como o paciente vive isso na sua relação com o analista responde sobre a natureza das angústias do sujeito e suas fantasias fundamentais. Será então nessa relação com o analista que o paciente irá transferir sua personalidade e dinâmica psíquica. E, através de seu tato, neutralidade e amor à verdade, o analista por sua vez traduzirá estes conteúdos de forma clara e organizada ao paciente de modo que ele se torne cada vez mais consciente e íntimo de si mesmo. Com maior segurança, intuição e consciência de si e da realidade à sua volta, o paciente será mais capaz de refletir com discernimento seus sentimentos, percepções e valores, tolerar a realidade externa em suas incertezas e imposições, tomando decisões com mais liberdade interna e autonomia de pensamento, em vez de atuar seus impulsos cegamente, podendo usar de criatividade para reinventar-se a si e sua própria vida após ressignificar sua história. Por fim, é importante dizer que para que este processo aconteça e se sustente é imprescindível que o analista tenha, ele mesmo, passado por estas experiências, submetendo-se a alguns bons anos de análise, além de uma séria e profunda formação. Eu acrescentaria também uma certa bagagem de vida, e amor e curiosidade pela diversidade humana.

Psicologia Online por Sophia Eugênia Vieira

Contato: (61) 98212-8900

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