top of page
  • Sophia Eugênia Vieira
  • 8 de jan. de 2022

Costumo dizer que a Psicanálise não é muito boa em marketing. Ela trabalha sob a ética da verdade, e a verdade que ela nos revela não é, à primeira vista, muito atraente, embora tenha sua beleza.


Uma vez Freud disse que a Psicanálise era uma atividade impossível, assim como educar e governar. Ele também disse que o máximo que ela poderia fazer pelo sujeito seria tirá-lo da miséria da neurose e devolvê-lo ao sofrimento comum.


E neste rol de frases “motivadoras”, eu acrescentaria que a Psicanálise não promete cura, porque ninguém se cura de si mesmo; e que ela nos incita a amar menos a nós mesmos, quando “nós mesmos” corresponde a nossas ilusões e narcisismos. Amar menos a nós mesmos e mais a realidade fora da nossa mente.


Para Melanie Klein, o ideal de saúde mental corresponde a uma personalidade bem integrada, com força de carácter, capacidade para lidar com emoções em conflito, equilíbrio e adaptação entre o mundo interno e a realidade, além de uma bem-sucedida fusão entre as distintas partes da personalidade. Por outro lado, ela também afirma que, mesmo em uma pessoa emocionalmente madura, persistirão fantasias e desejos infantis ao longo da vida adulta.


Serão lutos contínuos e necessários para a maturidade emocional, e os seguiremos realizando repetidamente. Aceitar os limites, nossos e dos outros; deixar de lado a onipotência, conciliar incongruências, tolerar ambivalências. Abraçarmos a precariedade do humano, a transitoriedade da vida. Aceitarmos que a dor é inerente, indicativo de vida, parte inalienável da realidade.


É laborioso. Implica esperar o que precisa de tempo, conter o que precisa de lugar. Transitar emoções dolorosas e difíceis. Nos desmarcarmos de destinos forçados e marcas impostas por outros, traçar nossos próprios caminhos.

Estes mesmos caminhos que nos levarão a amar mais a realidade e a vida como ela é.

  • Sophia Eugênia Vieira
  • 29 de set. de 2021

Hoje vi tantas fotos lindas pelo dia da gestante e me peguei pensando nessa força paradoxal que é o gestar, esse exercício de espera, continência, potência e humildade. Requer de um vazio. No útero, no psiquismo, no desejo. É preciso não ter para ter, e então conter. Gestar é poder oferecer, talvez pela única vez na função parental, a medida perfeita do limite. Enquanto expande.

ree

  • Sophia Eugênia Vieira
  • 29 de set. de 2021

Fui criada ao lado do meu irmão, dois anos mais novo, que nasceu com síndrome de down. Crescemos numa sintonia poderosa de amor e cumplicidade, comungamos dos mesmos erros e acertos de nossos pais, convivemos sob a mesma rotina onde eu sempre participava das suas atividades escolares, terapêuticas e de estimulação. Aliás, eu morria de inveja das suas aulas de fisioterapia, das brincadeiras na bola gigante, de toda atenção que recebia; lidei e cresci com isso. Me familiarizei com seu ambiente escolar, os colegas, as famílias, algumas com dificuldades e sofrimentos imensuráveis. Mas nunca foi sobre ele, era sobre mim. Depois de me mudar de cidade e me afastar fisicamente, a comunicação ficou cada vez mais escassa. Em pouco tempo senti que já não entendia muito bem o que ele falava, fui perdendo essa parte tão importante do elo que nos une. Mas Felipe tem uma memória incrível, e, mesmo que a gente se fale muito pouco agora, quando nos falamos, me sinto presente no seu afeto, viva na sua memória. Aliás, suas lembranças testemunham e legitimam minha infância, que também foi a sua; afagam e tornam terna minha história, acolhem a criança que ainda sou. Fui eu quem perdeu com esse distanciamento, sou eu quem não consegue mais compreender com a clareza de antes esse seu modo particular de se comunicar. E minha memória não alcança tão longe. Sou eu quem perco. Nunca foi sobre ele, sempre foi sobre mim.

Psicologia Online por Sophia Eugênia Vieira

Contato: (61) 98212-8900

bottom of page