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Atualizado: 1 de ago. de 2020

Todos nós, em algum momento da vida e em algum nível, já sentimos ciúme ou inveja. Ambos são sentimentos quase tão normais quanto o luto, embora desempenhem um papel muito mais inconsciente.

É comum ouvirmos confusões sobre os dois termos, como se tivessem o mesmo significado; eles até se aproximam muitas vezes, mas trazem importantes diferenças: começando, a inveja sempre envolve uma dupla, enquanto o ciúme, um triângulo.

Ciúme é aquilo que representa o medo de perder o que se tem para um terceiro. Por isso sua configuração é triangular. Neste caso o ódio é direcionado àquele para quem se perde (ou se tem que "dividir") o objeto amado. Este sentimento é tão comum e universal (lembrando que até os animais o sentem) que Freud afirma em 1922 que o indivíduo que aparenta não possuir ciúme provavelmente o teria reprimido, sofrendo de forma ainda mais severa sua atuação na vida mental inconsciente.

No mesmo artigo, Freud divide o ciúme em três camadas: o primeiro é o nível normal em que envolve rivalidade e medo de perder o objeto amado. O segundo nível é o projetado, onde um parceiro projeta no outro seu desejo de infidelidade, ou seja, acusa o outro de sentir ou praticar aquilo que ele não admite em si. O terceiro é o nível de ciúme delirante, de conteúdo homossexual em casais heterossexuais, onde é o parceiro ciumento quem deseja inconscientemente o objeto que julga ser desejado pelo outro. Este é o mais complexo, intenso, sofrido e persecutório, porque no fundo aquilo que se indaga nas incessantes perguntas investigatórias ao parceiro é acerca de seu próprio desejo; num misto de desejo e também de identificação com o "terceiro" da relação, como se também quisesse ser como ele.

Embora possa ser chamado de "normal", o ciúme nunca é totalmente racional, e pode se tratar de uma atualização de marcas emocionais das primeiras vivências infantis de rivalidade como, por exemplo, a que acontece entre irmãos.

Assim também o é a inveja que, segundo a teoria Kleiniana, pode já estar presente desde o nascimento, quando o bebê se vê impotente diante de uma mãe que é detentora e fonte de seu bem-estar e que pode ou não gratificá-lo de imediato através de seu seio farto do qual o bebê tanto depende.

A inveja, etimologicamente falando, se originou da palavra latina "invidere" que significa não ver, e seguiu sendo associada àquilo que se refere à visão: "mau olhado", "olho grande", "olho gordo", "cego de inveja", etc.

Em francês, a inveja é traduzida como desejo. O sentimento de inveja nasce então do desejar o que o outro tem e da frustração diante da impossibilidade de tê-lo. A frustração gera raiva, que gera desejo de destruição do objeto.

A inveja se torna o caminho mais curto para se lidar com a frustração: é mais fácil destruir aquilo que aponta minha falta, do que suportar a angústia, encarar e lidar com a frustração.

Algumas defesas são típicas na inveja: a primeiras delas é a desvalorização do outro. Como tentativa de não sentir inveja, o sujeito denigre para não ter que desejar o que julga ser inferior. Ele também pode projetar sua inveja no outro ou tentar provocar a inveja (que ele mesmo sente) no outro: a forma mais primitiva de comunicação. Assim, consequentemente, se sente perseguido pelo outro e ataca, criando um círculo vicioso. O indivíduo também pode fantasiar uma idealização tão exagerada do outro que se torna impossível alcançar. Para se proteger da inveja, ele pode imaginar que o outro possua qualidades inatingíveis, oferecendo proteção a si da frustração e ao outro de seu "ataque".

No final das contas, o termo "não ver" que originou a palavra inveja, pode se referir a não ver o que se tem dentro de si, o que se é, os próprios atributos.

Quando não reconheço minha força não suporto minha fraqueza. Na medida em que percebo, ou seja, vejo, minhas próprias qualidades e capacidades, me torno capaz de suportar as incapacidades, a frustração de não poder ter tudo e de não poder ser tudo. Reconhecendo minhas diferenças e qualidades promovo a integração destes conteúdos internos e então posso investir em novas possibilidades de satisfação através da capacidade de pensar e criar.

Invejas e ciúmes não se separam do amor. O bebê que acredita poder destruir o seio para não ser tão dependente dele, também é aquele que muitas vezes deixa de mamar para proteger sua mãe de sua destrutividade. Para Bion, a inveja é a primeira forma de pensar e tem uma função neste momento: a de abrandar o choque da criança para que ela se dê conta de que não é onipotente, mas que depende da mãe inteiramente.

Além disso, quanto mais distante estivermos da nossa própria realidade interna, mais insegurança haverá para gerar fantasias, ciúmes ou inveja. A intimidade com nossas próprias "tentações" faz muito mais por nossa saúde mental e nossas relações. Desconheço melhor forma de crescer, se desenvolver e amar.

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Imagem: Christian Schloe, Ilustrações Digitais. 2012

  • Sophia Eugênia Vieira
  • 1 de jun. de 2020

Atualizado: 1 de ago. de 2020

"Torna-te quem tu és" é um dizer de Píndaro que frequentemente se vê atribuído a Nietzsche porque esse último teria se identificado com a ideia e a aprofundado em suas filosofias. É um dizer forte, que envolve muitos processos psíquicos, sobretudo o processo de crescimento mental.


Ser quem se é implica deixar de ser todo o resto, abandonar todas as outras possibilidades de vida e suportar a dúvida de ter feito ou não a melhor escolha. Crescer é uma escolha! Difícil e dolorosa, mas menos sofrido que não crescer. Crescer pode gerar dor, mas não crescer gera sofrimento. A dor de crescer é a dor consciente de se diferenciar, de fazer escolhas, de enxergar e pensar a realidade por si mesmo, com olhos limpos e com autonomia de pensamento, porque nos desilude e encoraja a enxergar a realidade contraditória e inexata como ela é. Já o sofrimento de não-crescer é desorganizado, uma angústia confusa, irracional, sem nome e sem propósito.


A vida naturalmente está sempre nos trazendo experiências de crescimento, e evitar lidar com elas é como ir contra este fluxo. Crescer é o ato corajoso e constante de lidar com o desconhecido, sobretudo o desconhecido de dentro, e nos responsabilizarmos por ele.

Sempre carregaremos conosco restos de nossa infância e adolescência em formas de memórias não elaboradas que falarão em nós, produzirão sintomas e serão a base dos desejos mais importantes. Por isso, crescer não é linear, é como um espiral. Estaremos quase sempre envoltos das mesmas questões, que terão a ver com nossa história particular, e a cada volta avançaremos um pouco, ampliando a forma de ver o todo.

E isso nada tem a ver com se tornar uma pessoa boa. Até porque "ser bom" está muito relacionado a ser bom para os outros. Avançar no sentido da maturidade mental, ao contrário, pode incomodar, e teremos que aprender a lidar com a inveja alheia e a própria culpa por crescer quando pessoas próximas a nós não conseguiram fazê-lo.


Ser ou não ser? Às vezes nos esforçamos para viver de acordo com o que esperam de nós. Mas além de ser impossível agradar a todos, na maioria das vezes o outro não quer de nós o quanto queremos que ele queira. Ou seja, o outro não se importa de fato! Crescer é solitário.


Para isso teremos de lidar com dúvidas constantes, aceitar que não haverão certezas e respostas prontas, elaborar o luto da nossa identidade infantil, nos diferenciarmos dos nossos pais reais e nossos pais internalizados e enxergar que eles mesmos nunca tiveram as respostas que achávamos que tinham. Perdoá-los por isso.


"Tornar-se quem se é" é ser cada vez mais coerente consigo mesmo, com suas forças e fraquezas, com sua pele e estilo, aceitar-se como um todo, recontar a própria história, construir a própria visão de mundo enfrentando as frustrações de se ser um só: as dores de parto do nascimento de um ser pensante. Eis a questão.


Texto inspirado em:

Bion, W.R. Elementos da psicanálise. Imago, 1963.

Bion, W.R. Atenção e interpretação. Imago, 1973.

Martinez, A.L. O divã no dia a dia: crônicas do cotidiano sob o olhar da psicanálise. Ield, 2013.

Wolff, A, C.; Carvalho, C. V.; Costa, P.J.Dor mental, sofrimento, mudança. Artigo disponível em http://www.ppi.uem.br/. 2014.

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Imagem: Van Gogh, A noite estrelada, 1890.

  • Sophia Eugênia Vieira
  • 1 de jun. de 2020

Atualizado: 1 de ago. de 2020

Desde que vivenciei pessoalmente a maternidade, a mim pareceu que tudo a minha volta se referia a este único assunto: ser mãe, como ser mãe, como ser uma boa mãe, como ser a melhor mãe do universo. Ainda me sinto assim, invadida por um zilhão de textos ameaçadores postados geralmente por não-mães ou por mães tão inexperientes quanto eu. Um pouco porque a atenção da gente se volta mesmo para aquilo que estamos vivendo internamente, outro pouco porque o Google e o Facebook acham que sabem mais de nós que nós mesmos e direcionam nossas timelines e pesquisas, e muito porque a vontade de acertar é tão grande que é fácil se apegar às prontas verdades alheias.

Confesso que eu me sentia muito mais preparada para falar sobre maternidade antes de me tornar, de fato, mãe. Depois da gravidez, e principalmente depois do nascimento da Olívia, as certezas se foram. Em contrapartida, tomaram espaço sentimentos intensos e fortes intuições, e poucas decisões baseadas em racionalizações ou palpites de terceiros deram certo.

Me perguntaram se ser psicóloga ajudava nessa tarefa, brinquei que só atrapalhava porque a gente ficava se encaixando e encaixando o filho nos piores diagnósticos. Mas a verdade é que não faz diferença alguma. O que faz diferença é se deixar conectar com o bebê, consigo mesma e com esse momento único que só pode ser vivenciado por nós e por ninguém mais. E deixar toda a sabedoria fluir daí.

Admiro e cada vez mais me identifico com algumas ideias do psicanalista Donald Winnicott sobre este tema. Para este autor, o alicerce da saúde mental de uma pessoa está no desenvolvimento emocional do primeiro ano de vida. Por isso, os primeiros meses de um bebê são preciosos e dignos de todo cuidado e atenção. Ainda neste raciocínio, o autor aponta que o bebê já traz dentro de si impulsos para crescer e se desenvolver. Mas este amadurecimento só é possível quando o ambiente facilitar e for bom o suficiente para que o bebê possa se tornar ele mesmo.

Um ambiente facilitador compõe-se sobretudo de um cuidador (quase sempre uma mãe) mentalmente disponível para, naturalmente, exercer essa função.

Com "naturalmente" quero dizer que essa capacidade não se adquire através de textos, conselhos ou mesmo na consulta com o pediatra. Ela surge espontaneamente na medida em que a mãe for capaz de se desconectar de tudo a sua volta e devotar-se ao seu bebê. Identificada à criança ela será capaz de intuir e atender suas principais necessidades.

Contudo, para que a mãe possa entrar neste estado quase fusional com seu filho, ela precisará de todo tipo de apoio. Neste período, que é transitório, é necessário que a mãe se desocupe de suas atividades para se dedicar à maternidade com toda sua mente. Ninguém cria um filho sozinho, e quando penso no provérbio "é preciso uma aldeia para educar uma criança", acredito que ele se refira a esta mesma ideia.

Portanto, basicamente, se a motivação para ajudar for a preocupação com uma criança, antes de tudo, empodere esta mãe, crie condições para que suas necessidades externas sejam supridas, ajude-a a encontrar forças dentro de si e então deixe que faça seu trabalho.

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Imagem/Obra: Mother and Child, Gustav Klimt (1905)

Psicologia Online por Sophia Eugênia Vieira

Contato: (61) 98212-8900

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