- Sophia Eugênia Vieira
- 2 de ago. de 2020
Gosto de buscar a origem das palavras, saber como foram formuladas e desenvolvidas até o formato que as utilizamos hoje. Frequentemente me surpreendo. Recentemente busquei a palavra Humildade e descobri que ela vinha de "humus", "terra", e associei à nossa capacidade de mantermos os pés no chão, sermos realistas conosco. Hoje busquei Arrogância e descobri que a palavra vem de "arrogar-se", que seria "apropriar-se indevidamente do que não lhe pertence". Para podermos crescer, temos primeiro que identificar os caminhos mais justos, encararmos nossas dificuldades. É dolorido. Por isso sermos realistas com nossas condições. Acredito que o que Bion quis dizer com "amor à verdade"-necessário para o exercício da Psicanálise- passa por isso.
Um forte desejo de crescer e conquistar algo sem a capacidade devida é gerador de inveja. E a arrogância, como apropriação de algo que não lhe pertence, surge como "solução" que traz a sensação de força e poder àquele que se sente inferiorizado. Mas quanto mais "donos" da verdade nos tornamos, mais empobrecidos das faculdades mentais ficamos, menos pensamos. Assim como um paciente arrogante sugere um paciente amedrontado ante o encontro com o analista, um analista arrogante sugere insegurança. Da insegurança surge um falso título que não vai além das aparências, sem substância ou conteúdo, palavras vazias de experiência. A humildade seria então uma capacidade conquistada com certo trabalho. Envolve a sedimentação de recursos internos, estruturação do ego, capacidade para compaixão e acolhimento. Enquanto a humildade abre portas e cria vínculos de crescimento; a arrogância, com sua apropriação indevida, apega-se à racionalidade dos fatos mas fecha-se para qualquer possibilidade de nova experiência, evitando ser desmascarado.
Se pudermos tolerar a inveja, seremos capazes de criar nossas próprias ideias e possibilidades. Em cada um de nós existe um espírito investigativo que nos move na busca pela verdade, sobretudo a verdade sobre nós mesmos. Esta pulsão inata pela curiosidade e pelo vir a conhecer, quando tomada pela inveja, pode se manifestar de forma evasiva, contornando verdades penosas através de diversas formas de negação e arrogância; mas, se através do amor pela verdade, confrontamos as verdades difíceis a nosso respeito, então seremos capazes de crescer e aprender com a experiência.

Imagem: Catrin Weiz-Stein

